17 junho, 2008

PERGUNTA Nº 103

Actualmente, a moderna tecnologia consegue explicar muitos fenómenos que foram considerados milagres no passado. Logicamente, no futuro, muitos outros serão compreendidos no contexto das novas descobertas científicas. A juntar ao progresso tecnológico há ainda a considerar as proezas e truques dos magos e ilusionistas em lugares públicos ou clínicas privadas. Em face de tudo isto, e perante tantas falsificações, como deverão ser encarados os designados milagres? Antecipação das descobertas científicas ou truques de prestidigitação?



RESPOSTA



Eu costumo dizer que há de tudo por todos os lados. Além da tecnologia de ponta, truques de ilusionismo, utilização das reacções químicas e falsificações diversas, existem os verdadeiros milagres. E o facto de haver falsos milagres não significa que Deus não opere os verdadeiros!

Em 1958, quando tinha 15 anos de idade, encontrei na Biblioteca Pública do Porto (Jardim de S. Lázaro) dois grandes volumes de “Magia Teatral”) de um tal Oliveira Martins (não confundir com o conhecido historiador). Dentre os vários truques ali apresentados, chamou-me a especial atenção um deles que consistia em transformar a água em vinho e vinho em água.

O hilariante truque era baseado exclusivamente em reacções químicas e consistia no seguinte: Sobre uma mesa havia duas garrafas, uma com vinho e outra com água. O apresentador chamava dois voluntários, quase sempre dois jovens brincalhões, para tomarem as respectivas bebidas. Em face da cultura da época, seria de esperar que o primeiro lançasse mão da garrafa do vinho. Porém, quando este começava a verter o líquido para o copo, o mesmo transformava-se em água, o que provocava estupefacção no concorrente e gargalhadas na assistência. Entretanto, o segundo voluntário, mais vagaroso, sorria quando verificava que a sua água se transformava em vinho.

Naturalmente que a explicação desta “transformação” é do mais simples possível. Noa copos havia cristais químicos transparentes que reagiam com os líquidos, mudando-lhes a cor.

As garrafas, que estavam bem separadas uma da outra, com os seus respectivos copos, para não haver trocas, continham líquidos que pareciam água e vinho, respectivamente. Porém, os líquidos dessas garrafas não se podiam beber antes nem depois da experiência. E para evitar que isso acontecesse, o apresentador rematava o assunto oferecendo-lhes dois cálices de vinho do Porto, executando mais alguns truques com uma outra garrafa (especial) própria para o efeito.

Este truque químico nada tem a ver com o milagre das Bodas de Caná da Galileia. Jesus Cristo transformou ali a água, que poderia beber-se antes, em vinho que se bebeu depois. E não era uma zurrapa “feita a martelo” como por vezes aparece por aí. O vinho que Jesus transformou era do melhor, conforme os convidados garantiram (João cap. 2).

Não duvido da fabricação de milagres para promoção de certos tipos de fé ou crendice. Ainda há poucos meses um sacristão colocava lágrimas de sangue numa imagem, assim como outros modificavam a configuração da hóstia, etc. Felizmente que isso foi tudo desmascarado, mas há sempre candidatos a ver milagres onde eles não existem ou a dar uma “ajuda” no processo. Às vezes não se descobre a vigarice. No caso das “lágrimas de sangue” (de pomba) o “entendido” já tinha feito mais vezes a dita proeza. Depois de se descobrir quem ele era, foi fácil associá-lo com outro “milagre” em África, numa altura em que ele lá estava.

No seu livro “Fátima Nunca Mais”, o padre Mário afirma que em Fátima nunca houve milagre algum. Eu acredito nisso! E na Ladeira do Pinheiro, terá havido algum prodígio ou maravilha? É possível que alguém com dores de cabeça se sinta melhor ali, como referiu uma senhora na TVI, num programa transmitido em 26/08/99. Como a maioria das doenças (talvez 80%) são do foro psicológico, a auto-sugestão produzirá efeitos benéficos.

Eu acredito em milagres, mas feitos somente por Deus. Jesus Cristo realizou-os porque era o Emanuel, ou seja Deus connosco. Os apóstolos ordenaram aos doentes que ficassem sãos em nome de Jesus. Não fizeram milagres mas foram usados por Deus para dizerem aquelas palavras. Deus é que opera; o que nós podemos fazer é orar ou pedir a Deus que opere resolvendo os nossos problemas.

Os milagres de Jesus Cristo não poderão ser explicados pela moderna tecnologia. O Rabi da Galileia não apareceu com aparelhagem científica desconhecida, nem com a tecnologia de ponta, para realizar qualquer prodígio ou maravilha. Não surpreendeu ninguém com algum automóvel, avião, computador ou electrodoméstico que fizesse prodígios. Não! Jesus funcionava (e funciona no bem sentido) e não apresentou aparelhos que funcionassem!

Actualmente consegue-se andar por cima da água, e em grande velocidade, se “ski” aquático e puxado por uma lancha. Jesus não fez isso! Ele deslocou-se por cima das águas do Mar da Galileia, pelos Seus próprios meios, sem “ski”, sem cordas e sem lancha! Haveria mais algum artifício ou tecnologia escondida que escapasse aos observadores? Certamente que não! Caso contrário, Pedro, que estava no barco, não conseguiria fazer o mesmo (por ordem de Jesus) indo ter com o Mestre. E a reforçar esta realidade é que, quando a fé lhes faltou, Pedro afundou-se no mar e foi necessário Jesus socorrê-lo.

As descobertas científicas actuais poderão ser apresentadas como “milagres” relativamente a épocas passadas. Mas os milagres de Jesus não foram realizados por meio de material específico; nem científico nem de ilusionista, mágico ou prestidigitador.

O cientista usa produtos e modelos estudados para obter os resultados e esclarecer os interessados, enquanto o ilusionista ou mágico usa material especial e truques diversos para enganar os espectadores. Entretanto, Jesus Cristo usou apenas o Seu poder para realizar os verdadeiros milagres, demonstrando a Pessoa maravilhosa e poderosa que era e de onde tinha vindo.

O ilusionista usa artifícios e material diverso como caixas, malas, paredes, espelhos, etc, para, aparentemente, fazer desaparecer alguém. Com um pequeno desvio de uma plataforma onde os espectadores se encontram, entre o fechar e abrir de uma janela de observação, poder-se-á fazer “desaparecer” um carro de combate! E por que não a Estátua da Liberdade, por um processo idêntico?

Jesus Cristo não fez desaparecer nada nem ninguém por processos de prestidigitação. Ele próprio desapareceu quando ascendeu ao Céu na presença dos discípulos (Mar. 16:19; Luc. 24:51; Actos 1:9). E numa altura em que O queriam precipitar num abismo, Jesus passou pelo meio deles e ausentou-Se, sem realizar qualquer espectáculo nem usar material algum d encobrimento!

Há uma abissal diferença entre o verdadeiro Filho de Deus e qualquer prestidigitador. Os ilusionistas que fazem “desaparecer” e “aparecer” anéis e moedas em vários lugares, nunca mandaram os seus discípulos ao mar, pescar um peixe e tirar um estáter da sua boca para pagar os impostos, como Jesus fez!

Naturalmente que existem muito cépticos, os quais não acreditam em coisa alguma diferente do usual ou do que é normal acontecer ao comum dos mortais. Entre essas pessoas encontram-se os seguidores do Argumento de Hume, que limitam as situações novas, pelo menos antes de serem repetidas.

Temos de concordar que o “Argumento de Hume” actua, não só na exclusão de milagres, mas também no sentido de bloquear o avanço científico. Será isso correcto? William Neil afirma: “Depois da época de Newton, precisamos de deixar abertura para o elemento imprevisível, inesperado e incalculável no Universo”. Juntamos ainda a afirmação do Dr. Warwick Montgomery: “Depois de Einstein, nenhum pensador moderno tem o direito de excluir a possibilidade de quaisquer eventos por causa de um conhecimento à ‘priori’ da lei natural”.

Aceito que depois de Newton, Einstein e outros cientistas, teremos de deixar abertura para certos progressos científicos e tecnológicos. E acerca das coisas espirituais, eu acrescentaria que depois de Jesus Cristo vir à Terra tudo é possível. Não digo que as pessoas realizem milagres, de qualquer maneira, mas pedirem a Deus no nome de Jesus, segundo os moldes bíblicos e o Senhor operar nas nossas vidas.

Os seguidores do “Argumento de Hume” não têm argumentos para dizer que Jesus não realizou aqueles milagres. Em lugar de concluírem que os mesmos não podiam acontecer, pelo facto de não serem normais, deveriam compará-los com outros já feitos pelo Mestre da Galileia e assim concluírem que Jesus Cristo era especial.

Os milagres de Jesus confirmam-se uns aos outros. Aliás, confirmam a Pessoa Divina que Ele era entre nós. Sim, se o Filho de Deus viesse a este mundo teria de executar algo diferente do normal. As palavras não seriam suficientes porque falar... há por aí muita gente a falar bem e a dizerem mentiras que parecem verdade!

Mais importante do que estar envolvido num fenómeno fora do normal, é continuar a operar fenómenos fora do normal. Os cegos, coxos e leprosos que foram curados por Jesus, não possuíam doenças psicológicas nem foram sugestionados! Eram doenças físicas, visíveis, e depois, eles verificaram que estavam curados. Não só eles, mas os outros que os conheciam. Milhares de pessoas assistiram à multiplicação dos pães. Não foi uma ilusão de óptica. Não! Eles comeram os peixes e os pães multiplicados. Esses milhares de pessoas tinham fome, comeram e ficaram satisfeitos. Jesus não fez como o prestidigitador que “transforma” a água em vinho, impedindo depois que eles bebam. Jesus deixou-os beber o vinho transformado nas Bodas de Caná e comer os pães e peixes multiplicados porque aquilo não era nenhuma falsificação!

Os milagres de Jesus não eram de ordem psicológica, sugestão ou invisíveis. Jesus operava quando era necessário, sem espectacularidade, nem vedetismo, mas visivelmente. Até os demónios que Ele expulsou foram “vistos”, pelo menos uma vez, quando incorporaram os porcos que se precipitaram no mar (Mar. 5:1-20).

Não há truque algum de prestidigitador nem fórmula científica para acalmar tempestades. Os discípulos que já tinham presenciado tantos milagres interrogaram-se: “Mas Quem será Este que até o vento e o mar Lhe obedecem?”

Acredito que alguns dos falsos “cristos” que pululam por este mundo, até estejam convencidos pelo Diabo que são o verdadeiro Cristo. Será uma loucura e possessão diabólica. Porém, Jesus Cristo não somente disse que era o Filho de Deus, mas também demonstrou que O era! Jesus explicou que veio no nome dAquele que O enviou, mas outros viriam em Seu nome e as pessoas acreditariam. É o que está a passar-se actualmente. Os falsos “cristos” já não dizem que são “enviados”, “messias”, “prometidos”, mas dizem o nome de Alguém que já cá esteve: Jesus Cristo!

Jesus Cristo demonstrou que era o Filho de Deus; porém, tapou a porta de passagem para outros “cristos”. Ao dizer que outros viriam como se fossem o verdadeiro Jesus Cristo, Ele fechou a possibilidade desses falsos terem êxito diante dos verdadeiros crentes. Logicamente, se Jesus avisou que isso aconteceria é porque alguns deles até realizariam certos milagres!

Ora, se Jesus provou que era o verdadeiro Filho de Deus, não precisamos de outro, ainda que esse outro faça os milagres todos que Ele fez, ou até mais alguns! E como foi que Jesus provou ser o Folho de Deus? Com a Sua ressurreição?

Há quem diga que sem a ressurreição de Cristo não haveria Cristianismo. É possível que não, pelo menos aquele Cristianismo genuíno como Jesus nos ensinou. Parece que todas as outras religiões preocupam-se pouco com os milagres e qualquer coisa serve; basta o líder dizer que recebeu uma revelação ou iluminação do além para que apareçam logo seguidores dispostos a morrer e, principalmente a matar por ele e pelas suas ideias.

Sempre houve fanáticos à espera de qualquer coisas para se agarrarem. Parece que somente os apóstolos de Jesus tinham reservas acerca de tudo. Estou convicto de que nenhum lunático arrastaria após si os 12 apóstolos de Jesus! O pragmatismo daqueles homens ligados à terra e ao mar resistiria a um Maomé, a um Buda, a um Confúcio, Baha’ullah, José Smith, Helena White, Charles Russel e muitos outros falsificadores e deturpadores da verdade. Os doze apóstolos eram homens com os pés bem assentes na terra!

É verdade que a ressurreição de Jesus foi o máximo; porém, foi muito importante a preparação para a mesma. Sim, a ressurreição de Cristo não foi um fenómeno isolado, fora do contexto, que apanhasse todo o mundo de surpresa. Não! Os milagres realizados pelo Rabi da Galileia foram preparando para a Sua própria ressurreição. Além disso, Ele deu informações acerca da mesma, pois era necessário que os discípulos estivessem conscientes e atentos.

O Filho de Deus disse antecipadamente que todos O abandonariam e mencionou quem O iria traír (Mat. 26:21-25) e quem O iria negar (Mat. 26:34). Mais tarde também referiu a incredulidade de Tomé. Jesus Cristo fez várias alusões antecipadas à Sua morte e posterior ressurreição, conforme lemos no Novo Testamento. Só no Evangelho de S. Mateus encontrei, numa rápida pesquisa, pelo menos sete referências. Acerca do profeta Jonas (Mat. 16:4) e na parábola dos lavradores maus (Mat. 21: 37-39). Em Mateus 16:21 diz o seguinte: “Desde então começou Jesus Cristo a mostrar aos Seus discípulos que era necessário que Ele fosse a Jerusalém, que padecesse muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, que fosse morto, e que ao terceiro dia ressuscitasse”. Aliás, esse esclarecimento está repetido em Mateus 17:22, 23 e em Mateus 20:18, 19.

Jesus não só predisse que iria ser entregue nas mãos dos pecadores, sofrer, morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas também em que altura isso aconteceria. Diz o versículo: “E havendo Jesus concluído todas estas palavras, disse aos seus discípulos: Sabeis que daqui a dois dias é a Páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado” (Mat. 26:2). E mais adiante: “O meu tempo está próximo” (Mat. 26:18) e “eis que é chegada a hora e o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores” (Mat. 26:45).

Tudo cuidadosamente preparado e anunciado. Ao contrário de certos fenómenos que apanham toda a gente de surpresa, a ressurreição de Cristo foi anunciada e preparada.

Muitas vezes acontece qualquer fenómeno sem explicação aparente, apanhando aspessoas desprevenidas. Nessa altura, os poucos que presenciam o dito fenómeno são influenciados por alguns “convencidos2 e “fala-baratos” que dão largas à sua imaginação, acrescentando sequ~encias e detalhes que não ocorreram. Não foi assim com a ressurreição de Jesus Cristo! Todos estavam informados, incluindo os Seus inimigos e opositores.

Os profetas falaram do Messias descrevendo o que seria a Sua vida na Terra. Mais tarde Ele veio, demonstrou que O era, anunciou que iria morrer e ressuscitar e isso aconteceu mesmo. É verdade que para “esta geração adúltera e perversa, que pede um sinal, nenhum sinal será dado a não ser o do profeta Jonas”, mas eu fico contente porque Jesus falou como ninguém, fez milagres como ninguém e mostrou a três apóstolos o Seu poder e glória no Monte Tabor!


Autor do texto bíblico

Agostinho Soares